SNG ☠️: Amor na forma de Jade #03 💮

Escrever descrições é melhor do que escrever diálogo.

Eu escreveria 400 páginas de vibes qualquer dia desses

Algum diálogo indireto, sim, mas eu adoro escrever impressões, sensações, como o narrador percebe os estímulos do entorno e quem está a sua volta. Aí quando eu vou pro diálogo… parece tudo tão superficial e eu acho difícil fazer o diálogo superficial parecer significativo, fazer o “quer sopa?” ter subtexto.

Aqui, neste texto, apesar de parecer que eu posso, é meio complicado de fazer. Eu preciso das falas, pois elas são as únicas fontes de “verdade desenviesada” da história. Eu preciso das falas para que outras personagens, além da Flor de Geada, sejam imorais.

Foi uma furada, eu sei disso agora.

Sinopse de Amor na forma de Jade

Flor de Geada e Jasmine acabaram de se casar e as duas estavam prontas para viver uma lua de mel dos sonhos. Entretanto, os segredos que mantiveram uma da outra começam a surgir por causa do casamento. Jasmine não é uma foragida qualquer. Flor de Geada era parte de um exército poderoso e seus antigos chefes a querem de volta ao trabalho e uma poderosa bruxa, apaixonada por Flor de Geada, que quer desfazer esse casamento a qualquer custo.

Elas vão precisar estar mais próximas que nunca e confiar uma na outra caso queiram sobreviver e fazer o casamento dar certo.

Parte 1

Capítulo 3: Cidade (parte 1)

Jasmine está acordando. Você espera que ela não esteja de ressaca. De toda forma, tinha pedido café da manhã com chá, biscoitos e um caldo forte, caso ela precisasse de energia. 

Pouco sobrou das roupas que vestiu depois do banho, mesmo sem sua ajuda, muita coisa parou no chão, despida para dar mais conforto durante a noite de sono agitado. Você aproveita para ter mais uma olhada no que é oficialmente seu e que não foi aproveitado como você gostaria.

— Eu nunca imaginei que ficaria tão feliz em sentir o cheiro de chá — diz Jasmine. Ela não se importa nenhum pouco de estar quase nua na sua frente. É bem diferente do vexame de ontem, uma versão bem melhor, também mais próxima de quando vocês estavam sob a árvore.

Não é possível ver os braços em detalhe, só o que você já tinha notado pelo caimento da roupa nos ombros. A abertura do decote chamava sua atenção no momento. Você molha os lábios com um gole de chá antes de começar.

—  Acordei cedo, — você começa. E, de fato, está belíssima. A roupa não é a mesma do dia anterior, chapéu pequeno no topo da cabeça e grampos enfeitados prendendo o cabelo e o chapéu no lugar. Não era adequado para um lugar pequeno, dizia “quero distância” em um sinal bem direto. — Pedi um chá bem forte e comida nutritiva para começarmos bem a manhã depois de ontem. Há uma próxima parada em uma cidade que você vai gostar de conhecer. Tem teatros, casas de chá, lojas de roupa. Vai ser divertido. O que você decidir, vamos fazer.

— Eu decido?

— Sim.

— Entre ficar no barco, ir para o Jardim Alagado ou parar na cidade? — A pausa é mínima antes de Jasmine continuar. — Eu gostaria de derrotar a Bruxa por ter te enganado. Você desistiu da Bruxa? Ela não cumpriu o que te prometeu. Depois de todo aquele tempo cultivando o orbe sob a árvore, o seu poder foi roubado. Você não precisa pensar em mim. Eu, se fosse você, buscaria meu poder de volta. Eu nunca tive chance de fazer nada parecido — adiciona. Dando uma das primeiras dicas sobre o seu passado em anos de convivência.

— Há tempo para tudo — você responde após uma pausa suficiente para você escolher como responder aquele ataque à sua gentileza.

— A cidade. Eu adoraria conhecer a cidade — tenta Jasmine, mudando de opinião e tentando ser mais suave. — Só não estou arrumada para o passeio. Talvez eu experimente um penteado elaborado como o seu.  Não sei como começar a vida agora que posso fazer escolhas pela primeira vez em tanto tempo.

— Você está me vendo na versão mais natural possível. Pronta para uma caminhada confortável. Aliás, esta é a hora de pensar como será a Jasmine de hoje em diante. Eu comprei coisas para nós ontem, mas você não precisa usar.

Mesmo assim, você não dá opção para que ela encontre a comerciante que você encontrou no dia anterior, mas aponta os conjuntos dobrados, os que você escolheu para ela, e deixa que ela decida qual combinação de cor a interessa. 

Avaliou o corpo dela, que terminou de se despir sem pudor., reforçando o seu desejo. Havia resquício de músculo, ainda que a falta de treino tivesse seus efeitos e deixado a barriga roliça. Os calos das mãos ficaram, você os tinha sentido. As panturrilhas também, mas talvez fosse algo dela ter pernas torneadas daquele jeito.

 Você não conseguia evitar notar que era mais musculosa que Jasmine,  também não era mais alta. Era uma contradição forte alguém falando de dever, uma militar, desenhando o treino ficando fraca. O rosto era bonito, especialmente o formato dos olhos, grandes e alongados no rosto quadrado. 

Para sua surpresa, Jasmine não quis as roupas novas, ela usa as suas roupas, sem se importar que a calça está comprida e as dela são ajustáveis na barra. Você gostava mais antes, quando ela não usava suas roupas e estava com o conjunto colorido, como devia ser de onde ela vem.

Ela está bonita, mesmo sem as roupas que você escolheu. Você não consegue tirar da cabeça o quão bonita ela é. Não é amor. Talvez um pouco de atração física, apesar de Jasmine não ser sensual, apenas extremamente bonita.

— Pode ir. Vou terminar de me arrumar e desço para te encontrar.

— Estou incomodando? — Você já está na defensiva. Ela não responde rápido o suficiente. É melhor ir embora. Dar a Jasmine espaço se isso é tão importante assim. Porque ela não gostaria de você por perto é um mistério. Antes, ela queria sua companhia o tempo todo e, agora livre, já estava com ideias diferentes.

Jasmine te encontra fácil, você está no restaurante. Há uma certa dificuldade que agora você justifica com o balançar do barco, não mais a embriaguez. Ela se senta ao seu lado, sem continuar a conversa de mais cedo, Jasmine não se justifica para você, não diz o que está pensando de verdade. 

— Estamos com bastante sorte — você comenta para evitar o silêncio. — temos um céu sem nuvens e um tempo fresco. Poderíamos até ficar e acampar, se for o seu gosto. Passear pela cidade, mas ficar afastadas o quanto possível.

— Prefiro não dormir ao ar livre enquanto eu puder evitar.

— Uma cama seria muito agradável, mas pense no céu noturno, nas luzes da cidade, em virar a noite fora igual um gato sem rumo-

— Prefiro não estar sob tempestade longe de casa. Não tenho boas memórias disso.  — ela insiste. O tom de voz não é rude, mas não são as palavras que você quer ouvir. Ela bebe quando não deve, quer se esconder quando deveria se misturar…

Você sabe o que ela está passando agora. Foi muito parecido quando fugiu de Angra dos Reis pela primeira vez, o seu primeiro passo de liberdade. Você tinha voltado pois era uma gata muito bem cuidada que não sabia como existir enquanto gata de rua, mas tinha aproveitado os momentos de liberdade. Naquela época, não havia a vergonha do seu término com Habotai pairando na sua cabeça.

Jasmine toma sua mão na dela antes de dizer:

—Estou um pouco emotiva com tudo o que está acontecendo. Acho que vale irmos devagar—

Ela deve ter notado sua reação imediata e tenta se justificar.

— Não sobre nós. Sobre todo o resto.  Como é a sua casa? Você fala do Jardim Alagado como se ele fosse um brejo. Quando vou conhecer?

— Estamos a caminho de lá, sim. É um brejo, ainda que seja muito apreciado pelos moradores. É tranquilo, com sítios na vizinhança e chalés, como o meu. Há um vizinho que planta chás e orquídeas, há uma família de garças bastante agradável. — Você toma um gole de alcool antes de continuar. —  É um lugar para se estar como qualquer um com um ar fresco para recuperar as forças. Aqui parece bem melhor, mesmo não sendo uma cidade muito grande.

“Já esteve em uma cidade como essa?”, você pergunta enquanto busca onde deve ficar o teatro, a casa de chá, o bordel, as lojas de roupas, as joalherias. Pareciam descobertas o suficiente para te distrair por alguns dias, se Jasmine deixar. Se ela pedir para que fossem embora, você não seria cruel de mantê-la longe do Jardim Alagado, a princípio.

Enquanto vocês entram de restaurante para casa de chá e bordel, você percebe o quanto foi provinciana considerando o barco em que viajaram grande e luxuoso. Até uma cidade mediana como aquela conseguia ter um bordel ornamentando equivalente. Comparado à Angra dos Reis, devia ser mesmo uma decoração provinciana.

Há cochichos, provavelmente elogiando vocês duas enquanto casal e muito invejosas que aquela mulher belíssima não flertava como os outros clientes. Você ficava muito feliz em tocar o rosto de Jasmine, beijar-lhe o canto da boca enquanto era vista pelas prostitutas que queriam a atenção de Jasmine, mas não conseguiam.

— É melhor procurarmos um lugar para dormir — pede Jasmine.

— Aqui não? — você oferece? Ela iria se justificar, mas você a corta antes. Já imagina o que ela vai dizer. E se levanta para irem embora, mas antes, para no meio do caminho e olha por cima do ombro. — Que tipo de cidade do interior você morava que não tinha nenhum barulho de bordel e seco que a chuva te assusta?

— Eu só nunca gostei de nada disso — ela responde. Aproveitando sua pausa para enganchar o braço junto ao seu e apoiar o rosto no seu ombro atrapalhada pelos seus acessórios de cabelo.

Você só vê os olhares de inveja enquanto descem a escadaria iluminada, as roupas se arrastando pelos degraus, enquanto vão até o balcão e você tira uma mecha de cabelo do rosto de Jasmine e depois saem de braços dados do bordel.

Está tarde o suficiente para que você possa olhar um dos avisos postados nas paredes externas da rua principal sem a confusão dos passantes. Sem que outra pessoa note sua curiosidade e faça a mesma conexão que você: é Jasmine no cartaz. Um tanto irreconhecível, mas você conhece bem o rosto dela e o artista fez um ótimo trabalho.

— O que tem aí?

— O quê? — Você faz questão de puxar o braço dela para baixo, parecer zonza e só então responder. — Eu esqueci o caminho da hospedagem! Esta rua parece familiar? — E teria feito cara de boba, mas você nunca trocaria sua expressão neutra por uma tão besta, seria muito estranho para sua personallidade. Você pareceria confiante e tranquila em situações muito piores.

Aquele cartaz parece um aviso definitivo de que Jasmine era muito mais importante ou perigosa do que ela parecia a princípio. Ela parecia uma militar de alta patente, não havia motivo para não ser, mas que podia ter simplesmente cometido um crime militar ou irritado alguém superior. Nada pelo qual ela seria procurada depois de anos detida naquela árvore.

A situação dá um gosto diferente ao relacionamento de vocês. Ela não estará disponível para sempre, seu casamento vai acabar de forma trágica, o término mais trágico que você terá experenciado. Não o mais triste, mas o mais trágico. Você gosta disso.  Não há como competir com uma situação dessas: é um romance trágico que pode ser uma experiência única na vida. Jasmine pode ser morta durante a captura ou ser levada a um lugar ainda mais ermo que a árvore na montanha.

É tão mais fácil para você amá-la agora que sabe que pode perdê-la a qualquer momento…Você não mantém a farsa de ter se perdido entrando errado em alguma rua, mas vai direto a hospedaria. 

Tudo mudou.

Acho que agora já contei tudo?

As falas, o narrador, a escolha do tempo verbal. Tudo nesse texto foi uma cilada na qual eu decidi me iludir e continuar me dando mal. Entenda em detalhes no próximo capítulo. E o tamanho do capítulo que ficou gigante na reescrita, então tá picado em dois.